ANJO EXTERMINADOR (1962)
Direção & Roteiro: Luís Buñuel
PERSONAGENS
Serviçais:
Julio = mordomo
Lucas = ??
Cozinheiro Gordo = Pablo
Cozinheira Gorducha = Camila
Ajudante de Cozinha = ?
Camareira = ?
Donos da casa:
Edmundo Nóbili = anfitrião
Luzia Nóbili = anfitriã
Convidados:
Blanca = pianista
Alvaro Aralda (?) = Coronel
Sergio Russi = velho rabugento
Letícia = Valkiria
Beatriz = Noiva
Eduardo = Noivo
Leonora = Cancerosa
Christian Ubaldi =
Rita = mulher do Christian
Leandro Gomes =
Alberto Rocco = maestro
Alícia Rocco = mulher do maestro
Raul = gorducho aleijado
Dr. Carlos Conde = o médico
Silvia =
Francisco Avila = gorducho de bigode?
Juana Avila = mulher do gorducho de bigode
Ana Maynar = irmã do almofadinha
Começa enquadrando o que parece ser a frente de uma catedral.
Qual?
De que estilo?
As portas estão fechadas.
Enquanto passam os créditos, toca uma música religiosa.
Orgão e coral.
Que música é?
O que cantam?
O movimento da câmera de “cima para baixo” na catedral fez com que ela pareça uma maquete.
FADE OUT
Começa a história.
Localização: Rua da Providência (CALLE DE LA PROVIDENCIA, em letras de forma brancas contra um fundo preto)
O formato da placa, junto com a estaca na qual está presa, lembra uma cruz.
Teria a ver o nome com a Providência Divina?
A placa, no seu formato, também me lembra boinas militares. Será??
Câmera se move para amostrar a rua, com carros e transeuntes, na frente da casa onde acontecerá a história.
Existem dois pedestres e dois carros indo. Depois, dois carros voltando.
Algum significado nisso?
Câmera fecha no portão da mansão, que se abre. Alguém sai. É o Lucas (função na casa???), que é atrapalhado pelo mordomo na sua tentativa de ir embora.
Uma breve discussão, com o mordomo chamando atenção para a quantidade de convidados que estavam sendo esperados.
A explicação do Lucas é esdrúxula:
“ir dar uma volta” e “não ter pensado nos convidados”.
Disse que voltaria logo, mas o mordomo diz que não precisa se dar ao trabalho de voltar.
Julio, o mordomo, está de fraque, todo engomado, em consonância com os convidados (o serviçal que entra em contato com a família e seus convidados tem que ser e estar apresentável.
Usava fraque. Provavelmente o padrão de moda da época.
Já o Lucas usava boina e roupas de frio (um casaco)
Corte: Sala de café (?) e jantar: luxuosas.
Um lacaio cuida da iluminação, acendendo castiçais. Um toque de requinte, provavelmente, já que tinham energia elétrica.
A sala de jantar é clássica, com mesa retangular. Há uma tela grande ao fundo, indiscernível. Me lembra uma mão com dedos esticados e o que seria o arranjo de flores, mas parece um pássaro.
O mordomo Julio pergunta aos dois criados (vestidos como ele) se o Lucas se indispôs com eles. Eles respondem que não. Julio diz que se ele não estava bem na casa era melhor, mesmo, ter ido embora. Ressalta que há muitos como ele no mundo (aludindo à facilidade de substitui-lo). O lacaio careca retruca: “- Questão de gosto. Quem sabe?” -, com um leve tom de reprovação ao comentário do mordomo. Depois disso os dois criados se olham em silêncio e de forma suspeita, como se soubessem de algo. O criado careca faz um gesto com a cabeça e o criado com cabelo se retira da sala.
Corte: Cozinha
Dois cozinheiros com uniformes clássicos da função. Uma mulher (Camila) e dois homens (o gordo é o Pablo).
Há um cisne de gelo, muita comida e frutas. É uma cozinha comum, excluindo-se o cisne, que estava lá para dar o famoso “toque de classe”. Nada fora do lugar ou que chame a atenção.
A mulher de uniforme preto (camareira, provavelmente) fala com a Camila. Conversam sobre como querem ir logo embora, sobre onde ficar, à aquela hora da noite e que a noite está feia.
Há um relógio na cozinha. Parecem ser 22hs10.
O ajudante de cozinha se oferece para acompanhar as mulheres, ao qual é repreendido pelo cozinheiro Pablo, que diz que ele tem que esperar por ele.
Elas começam a retirar os uniformes.
Novamente o número dois: dois homens; duas mulheres
O Criado Careca entra e fica atrás do cisne de gelo. Tem uma panela ao lado que parece ter alguns peixes esquisitos ou lagostas. Ele reclama do caviar ainda não estar preparado. O cozinheiro diz que é pra depois, pois a Senhora (Luzia) quer que o guisado seja servido primeiro. O outro criado diz que foi encarregado de servi-lo. Já o Careca diz: “- De ser o palhaço.”
Corte: Exterior
Os convidados chegam em seus carros.
As criadas passam pela cozinha, sem os uniformes, indo embora. O cozinheiro olha para elas. Parece que desejando ir, também.
Elas evitam os convidados, se escondendo. O patrão Edmundo chama pelo Lucas. Todos sobem para tira os casacos. Estão com roupas aristocráticas: casacos, fraques, cartolas. Os caras têm grana.
As criadas fogem. Antes a mais velha diz que não é certo ir embora desse jeito. Parecia estar com dor na consciência. A outra ralha: “Devia ter pensando nisso antes.”
Então havia um plano para a criadagem ir embora?
Na cozinha os cozinheiros dão os toques finais no cisne de gelo: um o seca enquanto o outro coloca o que parece ser o caviar.
Os lacaios servem as bebidas. Usam luvas, agora. O mordomo só inspeciona. Os convidados estão reunidos na sala de jantar.
Tela ao fundo atrás da Luzia: crianças?
Conversa estranha: Um dos convidados (o coronel mais jovem do Exécito, mas que não é um herói) diz que não suporta os canhões. Blanca então pergunta o que é a Pátria, então, ao que o Álvaro responde: “É um conjunto de rios que dão no mar.”
Visão cínica. Não liga para o país, apenas para seus status no Exército.
Onde a história se passa? México? Espanha? Tanto faz?
Não entendi a piada:
“O que é morrer.”
“Sim, morrer pela Pátria.”
Edmundo, o anfitrião, faz um brindo a Silvia (uma artista?) por sua “crianção da noiva virgem de Bermuda.” Aparentemente ela os entreteve com tal virgem antes do banquete.
Línguas felinas:
Cara: “noiva, ainda passa. Mas, virgem?”
Acompanhante: “Virgem ficaria melhor em Valkiria, ou Letícia.” (close na Letícia). Diz que ela ainda é virgem, o que espanta o cara. Ela então diz:
“Dizem que ainda conserva esse objeto. Talvez seja uma perversão.
A sociedade alta criticando o o que era, então, considerado um valor. Colocar a virgindade como algo absurdo pode indicar uma maior liberação em relação à sexualidade; uma crítica aos que criticam esse valor tradicional ou a referência simples à sexualidade como fonte de perversões (eles também seriam perversos, por conta de seus comentários e do que eles revelam implicitamente: pessoas amorais que se entregam aos prazeres do sexo sem comedimentos.
Estranho: Edmundo se levanta para fazer o brinde, novamente, como se fosse a primeira vez. Ninguém lhe dá a mínima. Fica chateado.
Déja vú?
O companheiro jovem de Silvia (Almofadinha) está profundamente aborrecido. No mínimo porque ela está dando atenção ao Sérgio (velho rabugento).
Luzia, a anfitriã, pede desculpas por ter mudado a ordem do cardápio, para que o guisado fosse servido antes, de acordo com o costume maltês.
O criado Cabelo traz o guisado, mas cai com ele, sujando alguns convidados. Eles riem. Um comenta que foi um fato delicioso e inesperado, cumprimentando Luzia. Eles sabiam que o acidente era forjado.
O criado Cabelo se desculpa, numa postura humilhante. O Almofadinha é americanizado: “Wonderfull!”
O local deve ser México, mesmo. A proximidade geográfica explicaria adequadamente a americanização de personagens.
Já o Sérgio Russi disse não ter achado graça alguma na brincadeira, após a Blanca (?) ter comentado como não é todo mundo que sabe fazer esse tipo de brincadeira. Ela acha engraçado a rabugice do cara.
Seria possível relacionar isso de alguma forma com o chiste?
Luzia percebe a conversa e se preocupa, saindo da sala. O Criado Careca chega com um prato, mas fica sem saber o que fazer sem a patroa na sala. Ela foi impedir que um filhote de urso e três cordeiros fossem soltos, já que o Sérgio não gosta de brincadeiras.
Será que o urso iria caçar os cordeiros? Que brincadeira seria?
O mordomo Julio parece aprovar e chama a atenção da senhora para os eventos estranhos da noite.
Os cozinheiros também estão partindo, às 22hs40min.
A estranheza da situação, então, passou a ser percebida.
Também ela pergunta se os empregados estão insatisfeitos com algo, já que abandonam o trabalho no meio do jantar.
Se questiona a razão de tudo?
E haveria razão para a estranheza?
Sem dúvida que sim, mas isso não significa que ela poderia ser apreendida tão facilmente, apenas com perguntas básicas e indignação.
Julio é um puxa-saco colaboracionista: “Acho que os empregados são impertinentes.”
Os criados estão indo embora. O que tem cabelo bebe e o Careca vai fazer sua mala (não o deixariam entrar no dia seguinte).
Corte: Sala de jantar vazia
Só uma loira (Valkiria) na sala. Joga um cinzeiro pela vidraça, enquanto os demais estão na saleta adjacente à sala do piano, onde Blanca está tocando. Um dos homens comenta: “Que mulher interessante!”
Mas, por que a Valkiria quebrou a vidraça?
Beatriz e Eduardo dançam. Perguntam seus nomes, como se não se conhecessem, embora sejam noivos e vão se casar no sábado (em cinco dias).
A história se passa numa segunda-feira, então?
O médico, doutor Carlos Conde, fala com Leonora (sua paciente), que diz estar se sentindo bem e com apetite. Ele diz que sua doença né insignificante. Ela o chama para dançar e dá-lhe um beijo, ao qual ele pergunta: “Transferência?”
A Leonora esta apaixonada por seu médico, exemplificando a transferência analista-paciente (transferência erótica = resistência).
Ela diz que era um desejo que queria satisfazer.
O médico se distrai com um casal, com a mulher dizendo que o marido (Christian) comeu demais e a úlcera o está atacando.
Um gorducho (que viu o beijo) apresenta ao Christian o Leando Gomez, recém-chegado à cidade (provavelmente vindo dos EUA). Após as apresentações, Christian se afasta, deixando o Leando com a esposa.
Gorducho pergunta ao médico sobre o beijo. O médico diz que ela não dura nem três meses. Tem câncer.
Outra piada que não entendi:
“Não dou três meses até que fique completamente calma.”
“E numa boa cova.”
Insólito: Christian, após tomar uma taça de champagne, vai cumprimentar efusivamente o Leandro, sendo que eles haviam sido apresentados pelo gorducho e demonstrado grande frieza um com o outro.
Leandro estava em Nova Iorque. Chama o amigo para ir à sua casa, onde lhe dará uma caixa (?). Christian diz: “Cuidado. Não estamos sós”, e então apresenta Leandro para o Sergio Russi, que resmunga e sai fora. Parece que não gostou da brincadeira dos dois se apresentando ou se fazendo de amigos.
Eles comentam que o velho é excêntrico e que talvez seja um homem das Letras.
A loira (esposa do Christian?) que estava com ele os convida para ouvir Blanca tocar.
Na sala do piano um cara de bigode está preocupado com as horas. Valkiria está de pé ao lado do piano.
Atrás da Blanca há um conjunto de armas brancas na parede. O piano é branco.
Coisas insólitas no salão do piano.
Estranho: Christian faz um gesto código para o maestro, que devolve o mesmo código.
Uma das mulheres pea um lenço de sua bolsa, que tem um pássaro morto dentro (dá para ver os pés da ave).
Raul pede a Blanca para tocar Scarlatti (?)
Christian e o maestgro conversam estranhamente. Estavam combinando algo. Parecem fazer parte de alguma fraternidade. Seriam maçons?
Há portas com figuras religiosas, ao fundo. Um anjo está em destaque. Parece estar com a mão direita levantada, numa posição de apunhalar.
Leandro Gomez interrompe. São apresentados.
Christian e Leandro trocam leves hostilidades, sobre quanto tempo o Leandro ficava. Christian diz que mora ali.
Na casa??
Edmundo pede para Julio dispôr os casacos. É hora de irem emobra. Mas o maestro cai no sono num sofá. Antes disso o Sergio e a Silvia (ou Valkiria) riem de canto de boca pela briga do Christian com o Leandro.
Estranho: A conversa do Edmundo com a mulher do maestro, Alicia. Parece que ela fala dele tentar fazer sexo após as apresentações. Que ela não se queixa (então, não consegue) mas o contr´rio. Ela acha que o Edmundo perguntou se ele iria tenar uma ereção na casa dele.
Piada estranha: Christian e sua esposa, que está cansada por causa da gravidez, vão se aninhando num sofá. Uma mulher pergunta se ele é o pai, deixando-o indignado. A esposa diz que a ciência decidirá.
Luzia é atraída por Blanca, que já deveria ter ido embora, mas estava conversando com o Raul sobre a fauna da Romênia. Daí ela diz que vai embora de vez.
Várias pessoas se acomodando na sala. Uma mulher acendendo o cigarro para outra.
Luzia se encontra com Alvaro. Se beijam. Marcam um cato para quando todos se forem. Já são quase quatro da manhã.
Um retrato ao fundo. Quem?
Edmundo percebe que o batom da esposa está fraco. Comenta que é por causa do avançado da hora.
Comentário tolo ou indireta?
Há um busto sobre uma armário atrás deles. Também uma estátua de atleta à direita da tela.
Edmundo apaga as luzes e conversa com alguém sobre mandar preparar os quartos para hospedá-los. Esses falam sobre suas obrigações matinais e como deveriam ir.
Julio apaga mais luzes. Caras comentam se devem ir ou não. Vêem um fulano tirando as roupas para dormir. Alvaro diz que isso é um abuso.
Edmundo e Luzia se incomodam com a situação. Ele arranja desculpa para Leandro, por ter vindo dos EUA. Fala também algo sobre ser nesse horário que o corpo alcança a sua máxima depresão (sonho?) e também como a temperatura está agradável. Tudo para justificar o comportamento inapropriado dos convidados.
Julio: sozinho na sala de jantar.
Os noivos se afastam da horda. Beatriz pergunta: “Por que estamos aqui? Por que não fomos embora?”
Eduardo tá mais interessado em catar ela. Responde: “Porque todos quiseram ficar.”
Se isentam de responsabiliade. Não ficaram à toa, mas seguindo o bando. Não havia porque pensar nisso. Ainda mais com sexo na jogada.
Ela percebe que “não é natural”.
Ele: “a vida é divertida e estranha.”
Ela segura o braço dele. Voltam para junto da horda.
O Sergio olha para a sala. Visivelmente não se sentindo bem.
Angústia?
Amanhece
O número da casa é 1109. Teria alguma relevância?
Os portões estão abertos. Movimento de câmera com grua.
Todos acordam e se arrumam.
Rita comenta sobre o descarrilhamento de Nice, e que está tão dolorida quanto esteve então.
Edmundo está inconformado com a situação.
Mulher ainda falando do acidente de trem. Faz referências à plebe. Não se comoveu com a dor deles. Se reconhece insensível.
Valkira: fome.
Quem foi o príncipe Lucart?? - comparação da frieza frente à morte dele.
O povo é menos sensível à dor. O compara aos touros. Ou, então, por não se compadecerem ao sofrimento dos touros.
Estaria colocando as touradas como espetáculo da plebe??
Mas, então: é México ou Espanha? Tem touradas no México?
Repetição da frase: “fica bem desalinhada.” O Almofadinha se doeu.
Sergio está passando mal. Edmundo quer leva-lo a um hospital, mas o médico diz que é melhor não movê-lo.
Edmundo parece ser a força que não se conforma com a situação e que quer romper com a estagnação de todos, ali dentro. Por ser o anfitrião, dono da casa, talvez represente o Ego.
O médico diz para sua paciente que o Sergio tem poucas horas de vida. Faz novamente uso da expressão “bem calmo”.
Referência à ausência de tensões do estado de não-vida.
Ele não aceita o beijo na mão que ela lhe dá. Segura a onda da transferência.
Novo fato estranho: as entregas de suprimentos na casa não estão sendo feitas. Não se consegue entrar na casa.
As mulheres vão a um tocador, mas não passam pelo portal da sala. Um cara de bigode chama atenção para isso:
“Aposto que não vão sair. Estão vendo? Que acham?”